5.4.09

Eu sinto, tu não sentes

Olhei, senti e depois? Sempre soube que o sofrimento iria apoderar-se de mim, mas não assim. Ao reflectir sobre o passado vejo-me inteiramente como uma garrafa: o conteúdo dedicado apenas para a digestão. Consumiste-me e fui logo direita para a câmara de moagem do centro de reciclagem de vidro. Foi tudo tão repentino e destrutivo como o ciclone de Bhola em 1970. Sem dúvida que aprendi, mas o quê? Estavas sentado e de olhos fixos, sim reparei que o teu azul esverdeado estava a examinar-me por completo. A primeira reacção foi de desprezo, afinal tu eras só alguém (até ali). Forçaste-me e eu reforcei-te com o “óbvio, não!”. Esse “não” remexia-se comigo cada vez que o repetia, cada vez mais intenso e poderoso até chegar à altura de essa força vencer a gravidade e calou-me (não para sempre). Um pássaro de asas bem abertas e firmes ao qual eu dava voz. Sonhava (e tu?), voava (e tu?)...vendo agora parecia que fazias malabarismo de palhaços. Foi uma receita fabulosa: uma dose de impiedade, de cinismo e uma colher de sopa de sofrimento para marcar bem. Cozinhaste e o júri parece ter caído nas tuas doses secretas de conservantes e corantes para dar um ar amoroso à coisa. Dói e ecoa.

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